(PT) Disclosure Day — No Fundo, É Sobre Nós
Algumas notas sobre o novo filme do Spielberg (e sobre o que ele diz de nós).
Spielberg fez um filme sobre extraterrestres. Mas o que fica ao sair do cinema é uma pergunta sobre nós.
A premissa, dita assim de forma simples, é sobre extraterrestres e a agência governamental que tenta esconder a sua existência. Mas dizer isso é o mesmo que dizer que O Padrinho é sobre a máfia. A história da família Corleone existe dentro da máfia, mas não é sobre ela.
Aqui é parecido: os extraterrestres desencadeiam a história, mas não são os protagonistas. São os humanos que o são. E é aí que o filme funciona melhor.
O momento certo para este filme
Spielberg usa este tema antigo — os ETs, a Área 51, os ficheiros secretos, o piscar de olho a Roswell e aos X-Files — para dizer algo sobre o momento em que vivemos. Um mundo com guerras muito presentes mas pouco explicadas. Com homens autoritários a mandar mais do que o habitual. Com desconfiança nas instituições, desinformação, desunião.
O filme não fala diretamente sobre nada disto. Nem precisa. O que faz é usar a ideia de que não estamos sozinhos como espelho: se existem outros seres, o que isso diz sobre nós? O que devíamos valorizar? O que deveríamos ser?
A resposta que propõe é quase incómoda de tão simples: empatia. Recentramento. Menos poder, menos segredos, menos tecnologia como fim em si mesma.
Uma montanha-russa emocional
Spielberg constrói a narrativa de forma a manter constantemente a tensão. Há uma perseguição permanente, uma sensação de urgência e de perigo, e uma expectativa contínua sobre se as personagens vão conseguir escapar ou não. Em certos momentos, até as próprias tecnologias extraterrestres contribuem para essa sensação de invasão e vigilância constante.
O resultado é um filme que mistura perseguição, mistério, romance, ficção científica e suspense de forma muito eficaz. Queremos sempre saber o que acontece a seguir.
O elenco
Emily Blunt está particularmente forte. Confesso que por vezes tive a sensação de que a sua aparência já não corresponde totalmente à de uma mulher da sua idade, talvez devido a intervenções estéticas cada vez mais comuns em Hollywood. Mas isso rapidamente deixa de importar. Ela é tão expressiva, tão intensa e tão competente que absorve completamente a atenção do espectador.
E não está sozinha. O filme está cheio de bons atores a fazer um trabalho sólido e emocionalmente convincente.
Também achei curioso o desenho dos extraterrestres, um claro piscar de olho ao imaginário de Roswell, da Área 51 e dos Ficheiros Secretos. Os clássicos “greys”, seres humanoides de olhos grandes que fazem parte da cultura popular há décadas. Sabendo hoje um pouco mais sobre ciência e sobre a enorme diversidade potencial da vida no universo, talvez não fosse a abordagem que eu escolheria. Ainda assim, faz sentido dentro da história e da tradição cinematográfica que Spielberg está claramente a homenagear.
Religião, identidade e a recusa em infantilizar a humanidade
Há momentos em que o filme parece reconhecer um receio antigo: que a descoberta de vida extraterrestre poderia abalar crenças religiosas. Mas Spielberg sugere o contrário (que a religião pode continuar a existir e a adaptar-se).
Eu não sou uma pessoa particularmente religiosa, por isso interpretei essa mensagem de forma mais ampla. Não apenas como uma questão de fé, mas de identidade humana. A nossa filosofia, os nossos valores e a nossa cultura não precisam de desaparecer perante uma descoberta desta magnitude. Podem simplesmente adaptar-se.
Uma das ideias que mais gostei é precisamente essa: Spielberg reconhece os receios humanos perante o desconhecido, mas recusa uma visão infantilizada da humanidade. Não assume que vamos reagir da pior forma possível. Sugere que uma descoberta destas pode trazer algo positivo (pode colocar-nos em perspetiva, obrigar-nos a olhar para nós próprios de forma diferente).
O que fica quando os créditos sobem
O filme deixa espaço para pensar. Não fecha todas as portas, não explica tudo. Há questões que ficam suspensas no ar — o que é simultaneamente frustrante e maravilhoso. Frustrante porque queremos respostas. Maravilhoso porque continuamos a pensar no filme depois de ele acabar.
A história original é do próprio Spielberg, embora o argumento tenha sido escrito por David Koepp, colaborador de longa data em Jurassic Park, Guerra dos Mundos e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Sente-se essa combinação: o lado emocional e profundamente humano que associamos a Spielberg, com um forte sentido de aventura e descoberta. Não é um filme de ação no sentido tradicional — não vive de explosões ou exageros. Mas tem ação suficiente para manter a narrativa em movimento. As personagens têm nuance, raramente alguém é completamente mau, e a música faz o que a música de Spielberg sempre faz: amplifica sem explicar.
Não está ao nível de ET. Mas não precisava de estar.
No final, aquilo que fica não são tanto os extraterrestres. Fica a pergunta que eles colocam sobre nós próprios. Quem somos, como nos vemos, e como mudaríamos se descobríssemos que afinal nunca estivemos sozinhos.
Talvez a verdadeira provocação do filme seja outra: a possibilidade de não sermos assim tão especiais. E de essa descoberta não nos diminuir — mas ajudar-nos a perceber melhor quem somos.
4/5


