Acabou de surgir na Netflix um documentário bastante perspicaz sobre a chamada manosfera. Louis Theroux: Inside the Manosphere aborda este universo com nuance, algum distanciamento e claro valor sociológico.
Uma das qualidades do documentário está precisamente aí: não exagera demasiado nas críticas nem entra em caricaturas fáceis. Em vez disso, mostra estas figuras tal como são e expõe com clareza a lógica que exploram. E essa lógica tem muito a ver com a forma como funcionam hoje as redes sociais. O espetáculo mais chocante é o que tende a gerar mais atenção, mais cliques, mais visualizações.
É nesse terreno que estes influenciadores prosperam. E prosperam, em particular, junto de uma faixa muito influenciável da população: os jovens homens. Fazem-no quase como um culto, ou até como uma espécie de religião simplificada, em que se apresentam como heróis de uma história com papéis muito definidos. Há os heróis, que são eles, e há os subordinados, que muitas vezes são as mulheres.
O documentário mostra bem como muitos destes homens são, no fundo, uma contradição ambulante. Falam de um deep state, de um Estado controlador, de uma espécie de governo sombra que manda em tudo e em todos. E apresentam-se como os que conseguiram escapar a esse sistema, enriquecer e alcançar uma vida de sucesso. Mas esse sucesso aparece sempre na mesma forma caricatural: mulheres com pouca roupa, carros caros, luxo, sol, viagens e uma produção incessante de conteúdo pensado para chocar.
Há toda uma narrativa à volta disto. Uma espécie de filosofia barata, cheia de buracos, mas muito simples e por isso mesmo eficaz. Nesse aspecto, faz lembrar a forma como Donald Trump se tornou bem-sucedido na política: dizer as palavras-chave que certas massas queriam ouvir. Também aqui a lógica é essa. Há sempre heróis e subordinados. Há sempre inimigos e uma promessa de redenção.
O documentário é particularmente forte quando mostra o lado fraudulento e completamente amoral deste universo. Muitos destes influenciadores vendem aos jovens esquemas de criptomoedas, promessas de enriquecimento rápido e receitas milagrosas de sucesso. E, como tantas vezes acontece, quem acaba a perder são precisamente os que mais acreditam neles.
“It’s highly profitable to be a dick on the Internet.” — Louis Theroux
Mas talvez o mais revelador sejam as contradições. Um dos casos mostrados é o de um influenciador britânico que foge às responsabilidades, mudando-se para o sul de Espanha, depois de um acidente no Reino Unido. Esse mesmo influenciador diz achar grotesco o que as mulheres fazem no OnlyFans e afirma não respeitar minimamente essas mulheres. Mas, ao mesmo tempo, promove esse conteúdo nas suas redes e lucra com uma empresa que agencia mulheres nessa plataforma. Ou seja: em teoria condena, na prática explora. Se dá dinheiro, serve.
E isso talvez seja uma das conclusões mais evidentes do documentário: não há ali grande base moral. Há sobretudo oportunismo, performance e uma enorme disponibilidade para dizer o que for preciso desde que funcione.
Ainda assim, estas figuras são veneradas. E isso também é revelador. Tudo é facilmente justificado na mente de jovens que procuram heróis, modelos e explicações simples para o facto de a vida nem sempre correr bem. Nesse sentido, o documentário mostra não apenas a toxicidade destas figuras, mas também a fragilidade emocional e social de parte do público que as segue.
Onde me parece menos conseguido é na explicação de fundo do fenómeno. A questão dos algoritmos e das redes sociais está lá, mas mais implícita do que realmente explorada. Faltava talvez uma análise mais clara de como estas plataformas, construídas para capturar atenção e vender produtos, favorecem a polarização, a conspiração e os influenciadores mais provocadores.
Também não me parece que o documentário explique particularmente bem porque é que esta manosfera encontrou tanto espaço para crescer. Há aqui claramente uma reação cultural, em parte ligada a excessos de certas formas de discurso identitário ou woke, e também à dificuldade real de uma faixa enorme da população masculina, homens que cresceram já quase “punidos” pela sua condição de privilégio, um privilégio que muitas vezes não sentem de todo na sua experiência concreta. E essa dimensão aparece pouco desenvolvida.
Ainda assim, há um lado humano que o documentário deixa ver e que merece atenção. Muitos destes influenciadores tiveram infâncias difíceis, cresceram sem uma figura paterna presente, e muitas vezes as suas próprias mães discordariam totalmente do que hoje defendem. E percebe-se também, em vários momentos, que alguns nem acreditam assim tanto naquilo que dizem. Quando a conversa deixa de ser performance e passa a ser mais direta, aparecem os buracos.
No fundo, conseguem ser verdadeiros bullies. Dizem combater uma sociedade cruel para os homens, mas muitas vezes acabam por reproduzir exatamente essa crueldade, e por vezes de forma ainda pior. Mesmo assim, no início conseguem oferecer uma coisa real a muitos dos que os seguem: conforto, pertença e uma narrativa simples para explicar o desconforto.
É isso que torna este documentário relevante. Não apenas porque expõe a hipocrisia destes falsos heróis, mas porque ajuda a perceber porque continuam a encontrar tantos seguidores.


